História

FUNDAÇÃO DE BELO CAMPO

Por Roberto Lettiere

Desde sua adolescência Napoleão Ferraz conhecia a região antes denominada de ‘Chapada das Cacimbas’, mas foi somente no ano de 1906, que o senhor Capitão Napoleão Ferraz de Araújo, proveniente do 2º Distrito de ‘Bom Jesus do Tremedal’, Distrito de São Felipe (O Distrito de São Felipe durante algum tempo pertenceu ao Termo da Imperial Vila da Vitória), que a essa época pertencia à Comarca de Condeúba, regressou para essa região com o intuito de fundar uma cidade com novos padrões de vida, onde a paz, a segurança, a educação e o bem-estar movimentariam o cotidiano de seus habitantes.

Residiu durante algum tempo na Fazenda do ‘Bom Jardim’ antiga propriedade do Coronel Antônio Ferraz de Araújo Catão e que na ocasião, por força de testamento pertencia a sua viúva Zeferina Maria Ferraz de Oliveira. Essa a casa residencial de Zeferina encontrava-se junto da margem direita da atual estrada estadual BA-265, entre os quilômetros 28 e 34.

Napoleão Ferraz de Araújo conhecia bem a região da ‘Chapada das Cacimbas’ e da ‘Vereda’ (Mato Cipó) onde moravam muitos de seus parentes (Isabel Lopes Ferraz de Araújo (Isabelinha), Coronel Pedro Lopes Ferraz de Araújo, David Ferraz de Araújo, entre outros), e, alimentado por secreto desejo e sonho, ADQUIRIU A FAZENDA DO ‘BOM JARDIM’ e várias outras propriedades da Fazenda Vereda e inclusive a terras no lugar denominado ‘Cacimbas’, de Zeferina Maria Ferraz de Oliveira e quis fazer da pequena e tranquila ‘Chapada’, uma cidade – a cidade de seus sonhos – Belo Campo, como assim denominou o extenso, o plano e o verde planalto.

Foi, e com razão, que os antigos mercadores e viajantes elegeram a antiga ‘Chapada das Cacimbas’, como ponto de apoio às suas viagens e foi, também, com perspicácia e muita visão que Napoleão percebeu que o lugar constituía, dentro do contexto geográfico da região, um lugar estratégico de confluência para ir e chegar das regiões que hoje constituem os Municípios de Caraíbas, Tremedal, Anagé, Maetinga, Aracatu, Brumado, Cândido Sales (via Quaraçu e Lagoa do Timóteo), Piripá, Jânio Quadros, Condeúba e ao norte de Minas Gerais, como também ir para Vitória da Conquista, Salvador, Itabuna, Ilhéus e outras regiões..

Vê-se, portanto, que o lugar escolhido por Napoleão Ferraz para fundar uma cidade oferecia grandes meios de integração regional, social e comercial.

Belo Campo desenvolveu-se a partir da inauguração de uma casa residencial (Essa casa ainda existe, infelizmente, ela teve sua fachada reformada, descaracterizada por reforma ocorrida nos anos 50. Alterando assim, o mais valioso patrimônio histórico de Belo Campo) e comercial (1907), que Napoleão Ferraz construiu na atual Rua Cícero Ferraz, e também da edificação de uma Igreja dedicada a São Sebastião, também construída por ele, a pedido de Zeferina Maria de Oliveira e inaugurada no dia 20 de janeiro de 1908, Dia do Padroeiro São Sebastião.

Desse ano em diante, Napoleão começou a traçar ruas e praças que, aos poucos começaram a serem ocupadas por moradores da região, através de compras ou por doação de lotes, pois havia interesse de iniciar ‘uma cidade’.

No ano de 1911, Napoleão constrói uma nova casa, bem maior e com salão comercial ao lado, na atual Rua Honorina Dantas (Parte dessa casa ainda é existente, a outra parte foi totalmente descaracterizada para fazer ali uma loja comercial, perdendo assim um dos mais valiosos patrimônios da História de Belo Campo), onde após a sua morte seus descendentes residiu por muitos e muitos anos.

O Capitão Napoleão Ferraz de Araújo, desejando deixar para a posteridade um retrato escrito do início da cidade de Belo Campo, remeteu à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, uma ‘carta-relatório’ no ano de 1914 descrevendo a cidade, seu comércio, sua sociedade e as condições climáticas, pastoris e agrícolas entre outros relatos.

Nessa carta, Napoleão Ferraz, além de descrever a localidade, seu clima, sua vegetação, a educação e cultura e demais possibilidades econômicas, se refere a uma futura abertura de uma estrada de rodagem entre ‘Belo Campo e Conquista’. Havia uma estrada aberta por Napoleão desde 1910 e era utilizada por pedestres e animais. O que pretendia Napoleão era ‘abrir’ uma nova estrada que permitisse o trânsito de automóveis para transportar, evidentemente,  as mercadorias e passageiros.

Segundo a tradição oral, foi no final do ano de 1910 que Napoleão Ferraz inaugurou a abertura da estrada para pedestres, mandando fazer um ‘Cruzeiro’ (Cruz) de grande proporção que foi levada em procissão pelo povo da nascente cidade até a entrada do Povoado do Periperizinho, onde ainda se encontra fixada em pedestal de alvenaria. Dizem os antigos moradores que a procissão foi muito longa, com quase um quilômetro de comprimento.

Exagero, à parte, reflete-se sobre a possibilidade de haver muita gente para formar tão longa procissão. Conforme  menciona Napoleão Ferraz na carta acima transcrita, havia centenas de casas (é claro, com centenas de moradores) na região e que, somente de meninos na idade escolar de 7 a 14 anos ‘havia mais de seiscentos’. Por outro lado, leva-se em conta que as antigas procissões, especialmente as religiosas, eram feitas em duas ‘filas indianas’ (Fila de pessoas em andamento, dispostas umas atrás das outras, de modo que, cada pisa sobre as pegadas da que vai adiante, como fazem os índios americanos ao atravessar as matas), o que vem alongar as mesmas. Essa estrada ainda existe, apesar de estar, depois do lugar ‘Periperizinho’, quase que totalmente intransitável para veículos motorizados.

Com a abertura da estrada que ligou Vitória da Conquista a Belo Campo, em 1936, passando por Iguá (Angicos), Campo Formoso (Panela) e Jatobá, passando pela encosta da Serra do Bomba, na entrada para a Região da Caatinga.

A velha estrada para pedestres e animais, aberta pelo Coronel Napoleão Ferraz passou, desde então, a ser pouco utilizada e a falta de manutenção permitiu que o mato e a erosão danificassem a estrada que hoje é utilizada até a Fazenda de Sebastião Nunes Tigre.

Essa estrada para pedestres, aberta por Napoleão Ferraz tinha o seguinte itinerário: Belo Campo, ‘Cruzeiro’, Periperizinho, Fazenda de Sebastião Nunes Tigre e Fazenda de Dário Soares Ferreira, chegando até o Povoado do Arrasto, rumando para o Povoado do Jatobá.

Napoleão Ferraz na sua carta dirigida à Biblioteca Nacional relatou seus feitos e pretensões, contudo, parece-nos que em algumas partes cometeu pequenos exageros, por certo, prevendo o futuro, contudo, o fato é que tudo o quanto escreveu, foi uma verdade inconteste.

Na atualidade a população de Belo Campo se serve da estrada asfaltada BA-265 que liga o Município de Urandi à BR-116, a Rio-Bahia, passando por Belo Campo e que foi inaugurada no dia 07 de março de 1998, pelo Governador da Bahia Dr. Paulo Ganem Souto.